Eu Sabia!
Confirmando o que a gente já havia antecipado por aqui, a Trilha Sonora de Up! - Nas Alturas, de Michael Giaccino levou o Grammy. Francamente, não foi surpresa.
Ao mesmo tempo, o prêmio de Best Engineered album desbanca todos os profissionais do mundo e vai pra uma compositora/cantora: Imogen Heap. Mesmo enciumado, devo dizer que ela mereceu. Pra quem tiver curiosidade, ela fez um video blog durante todo o processo de montagem do estúdio, gravação e mixagem do Cd. Procurem no Youtube porque vale a pena, não por nada técnico, mas porque ela é muito engraçada.
Christine Tham e os Malefícios da Pseudociência
O áudio é realmente uma área muito interessante. Principalmente porque serve de veículo a uma das mais belas formas de arte que existem: a música. Fosse apenas usado para registro de voz falada e captação de sons da natureza não teria um centésimo do apelo e da popularidade de que dispõe.
Antigamente, lidar com áudio era uma tarefa ingrata. Os equipamentos eram caros e difíceis de lidar, e os próprios meios de reprodução eram bem limitados. Hoje em dia, porém, excelentes players estão à disposição de qualquer um que disponha de um orçamento razoável. Una-se a isso a democratização que os softwares e interfaces de áudio proporcionaram. Hoje, é possível comprar placas decentes e até mesmo conseguir bons softwares até “de graça” não é mesmo? E a internet vem se unir a tudo isso fornecendo um canal de comunicação totalmente democrático, onde cada um pode manifestar abertamente sua opinião.
Porém, tais facilidades trazem consigo alguns problemas. Qualquer pessoa que seja apaixonada por áudio pode acabar considerando que isso é o suficiente para a gabaritar a fazer testes e emitir opiniões, mesmo não tendo a formação necessária para fazê-lo. Não que eu ache que somente um engenheiro eletrônico tenha condições de fazer testes coerentes e emitir opiniões embasadas. Longe disso. Mas quando se “dá a cara a tapa” publicando uma matéria em um pretenso site “técnico”, é preciso muita coragem, sob pena de pagar mico. E se fosse só a exposição ao ridículo que importasse, tudo bem. O problema é que existe muita gente vasculhando a internet atrás de textos que justifiquem as suas próprias convicções, e quando acham um, mesmo desprovido de profundidade ou veracidade, passam a citá-lo como verdade absoluta. É aí que reside todo o perigo. Não podemos deixar que um texto incorreto acabe virando referência.
A Sra. Christine Tham é um exemplo. Ela publicou alguns textos em um site denominado www.audioholics.com que vêm sendo citados como “prova” de diversas características de mídias como LP, CD, SACD e DVD. Pois bem, indicado a estes artigos por um ávido e legitimamente interessado leitor, fui lá verificar do que se tratava. Antes de mais nada, procurei dar uma olhada no background técnico da Sra. Tham. Afinal, credibilidade é importante. Em sua biografia no site, temos o seguinte:
She was interested enough in the subject to enroll in an Electrical Engineering degree at Sydney University , but decided that was not for her and graduated instead with a University Medal in Computer Science (Honours) and subsequently a Master of Applied Finance from Macquarie University.
Bom, temos portanto que a Sra. Tham não é “engenheira”, mas graduada em Ciência da Computação com mestrado em Finanças Aplicadas. Isso obviamente não descredita seu texto, mas torna claro que a falta de conhecimento básico de técnicas de medição e física experimental podem acabar comprometendo.
Mas, dando um crédito de confiança que qualquer um merece, decidi acompanhar seu texto:
http://www.audioholics.com/education/audio-formats-technology/dynamic-comparison-of-lps-vs-cds-part-4
Note-se que a Sra. Tham está cheia de boas intenções ao propor uma comparação destas, e acho muito saudável que alguém se proponha a isso. Vamos ver então como ela pretende fazer isso.
Ela então pegou 5 gravações, todas anteriores a 1984, e comparou as edições em mídias diversas. Acredito - embora não tenha condições de afirmar - que as cinco gravações originais estão em masters analógicas, o que já me deixou preocupado, pois como vai se avaliar parâmetros como ruído de fundo usando uma matriz de fita analógica?
Vamos ver o método que ela empregou para efetuar a comparação.
I recorded all the tracks on the LPs using my system ( Dynavector DV-20xL cartridge, Rega P3 turntable, Dynavector P-75 phono stage) via the analog outputs of my Denon AVC-A1SE+ amplifier. I used my HTPC and n-Track Studio to do the recordings in stereo at 96kHz sampling rate and 24-bit resolution.
Curioso. Ela pega a saída analógica de um player decente com agulha decente e passa por uma interface digital para dentro do computador. Ora, já temos aí uma gritante incongruência. Se ela deseja comparar mídias digitais e analógicas decentemente, infelizmente está carregando para dentro do computador todas as características de um método digital para avaliar um analógico. Isso já demonstra a maior dificuldade numa comparação destas. Como comparar as características de uma mídia analógica com uma digital se o método de comparação envolve a conversão para digital? Mas parece que a Sra. Tham não se importa com este “pequeno” detalhe.
Seguindo,
For the CDs, I ripped the actual digital information (at 44.1kHz/ 16-bit resolution) directly from the discs using Exact Audio Copy . In some cases, I also recorded them as reproduced by my Sony SCD-XA777ES player via the analog outputs of my amp.
Ok para a primeira parte. Esse é um método coerente de se extrair dados de um CD de áudio. Porém a segunda parte é estranhíssima. Qualquer pessoa tentando fazer uma comparação próxima do aceitável usaria as saídas digitais (provavelmente SPDIF) de um player, e NUNCA a saída analógica. A não ser que estivéssemos comparando as saídas analógicas de dois players diferentes. Ninguém em sã consciência usaria a saída analógica de um player para testar a qualidade das características da mídia digital.
E a coisa continua:
I recorded SACD and DVD-A tracks using the analog outputs (via my amp) of the Sony SCD-XA777ES and Panasonic DVD-RP82 players respectively.
Agora a coisa se complica ainda mais, pois ela usa a saída analógica de players diferentes e quer analisar o conteúdo digital!! Não há como dissociar neste caso o que se vai medir das características dos circuitos analógicos de saída. Infelizmente, se ela não usa saídas digitais na comparação, seus dados não vão apresentar nenhuma credibilidade.
E a incoerência de formatos continua:
Linear PCM 96kHz/24-bit tracks encoded as DVD-Video content were recorded using the analog outputs (via my amp) Panasonic DVD-RP82, but also digitally ripped from the disc using DVD Decrypter .
Mais uma interface analógica no meio do caminho. E o pior, ela usou um software para extrair os dados cujo principal atributo é quebrar os mecanismos de proteção do DVD, e que não apresenta a princípio nenhum rigor técnico na transcrição - embora seja possível que este software extraia os dados corretamente.
Para fechar com chave de ouro, All wave files were then analysed using Cool Edit Pro . O Cool Edit era um softwarezinho bem decente para gravação e edição, mas sinceramente não sei se ele apresenta o rigor necessário nas medições que seria de se esperar de um trabalho sério.
Em resumo, a Sra. Tham mistura diferentes interfaces para colocar os dados digitais para dentro do computador, o que contamina fatalmente toda e qualquer medição daí pra frente. Quando ela usa uma conversão em 96kHz/24 bits para amostrar o LP está admitindo, pelo menos neste teste, que este padrão é bom o suficiente para registrar corretamente o comportamento analógico do LP. E isso vai de encontro à própria proposta do trabalho.
Resolvi seguir adiante para ver até onde o absurdo ia. A primeira coisa que ela faz é apresentar medidas de amplitude de pico e várias medidas de potência RMS. Porém, acreditem se quiserem, ela compara estas medidas vindas direto do CD com as medidas que passaram pela interface analógica!!!! O que se está medindo aqui? O desempenho do CD player e da interface digital?
Infelizmente a falta de rigor científico é tão grande que todas as conclusões seguintes se tornam inválidas. Não há como dissociar o comportamento da mídia do efeito primário da master analógica nem das características intrínsecas das interfaces analógicas no caminho dos sinais digitais ou da interface digital no caminho da analógica.
Ao longo dos diversos gráficos e tabelas que ela apresenta, o que pode dar a impressão de “trabalho criterioso”, bem que existem tentativas de coerência, e ela até que não se sai tão mal, exceto pelos momentos em que deixa sua avaliação subjetiva vir à tona:
This finding supports my own subjective impressions comparing the CD against the LP. I much prefer listening to the LP over the CD on my system. The CD sounds dull, congested, muddy, and lacking in dynamics. If I push up the volume, the sound becomes noticeably harsh and artificial. The LP on the other hand sounds more “dynamic” and “exciting.”
Decerto a Sra. Tham tem direito a ter opinião, mas não num trabalho destes. Se ela quiser avaliações psicoacústicas e subjetivas, deve recorrer a experimentos com um grupo controlado de pessoas, em comparações duplo cegas. Se o leitor um dia quiser apresentar um texto científico, por favor, em nenhum momento inclua suas “opiniões subjetivas próprias”.
Como ponto curioso de suas conclusões destaco:
It appears the the LP is definitely reproducing frequencies above 20kHz , although not very well. The LP is able to reproduce the analog tape bias at 29kHz , but very faintly. This is one advantage that LP has over CDs.
Deixa ver se eu entendi bem. Ser capaz de reproduzir a frequência do bias da master analógica é uma vantagem? Pra quem não sabe, bias é uma portadora de alta frequência usada para se contornar os problemas de histerese da fita analógica, e uma coisa que definitivamente não se deseja é ouví-lo.
E antes que aqueles que se sentiram justificados pelos resultados obtidos pela Sra. Tham se manifestem, eu já aviso que não sou a favor nem contra nada do que ela concluiu. Simplesmente ignoro seus resultados, por falta de rigor técnico. Estes “testes” da Sra. Tham são simplesmente uma tentativa de se efetuar medidas criteriosas vinda de uma pessoa para quem infelizmente faltam os conceitos mais básicos para se realizar este trabalho.
O pior é que o trabalho a que ela se propôs é extremamente difícil de se realizar, e talvez por isso experiências semelhantes não estejam abundando por aí. O fato é que a Sra. Tham, mesmo imbuída da melhor boa vontade, prestou um enorme desserviço à comunidade do áudio com sua pseudociência.
O Quase e o Certo
A verdade nua e crua é a seguinte: as ferramentas de trabalho com áudio evoluiram tanto que hoje em dia uma palavra saiu completamente do vocabulário de estúdio - o “quase”.
Não há espaço hoje em dia para o “quase” afinado, “quase” no tempo, “quase” nada. Ou está no tempo ou não está. Ou está afinado ou não está, e não há botão de pan ou abaixada de volume que compense o problema.
O mundo está melhor assim? Acho até que não. Ouvindo as convenções todas “fora” do rock dos anos 70, por exemplo, dá saudade da nossa antiga condescendência. Mas o fato é que hoje em dia, “quase” significa “completamente fora e o técnico foi preguiçoso e não consertou“.
Durma-se com um silêncio desses.
Nível Mínimo Aceitável de Ruído
Outro dia um leitor me escreveu perguntando qual o “Mínimo aceitável de humming em uma guitarra ou baixo”. Ora, meus amigos, em uma gravação decente o mínimo aceitável é zero , ou seja NENHUM humming. (reparem que neste contexto, “zero” não quer dizer “0dB”, mas “menos infinito dB”).
Às vezes é muito difícil de conseguir, principalmente em situações domésticas. Mas, a não ser em casos de instrumentos ou instalações realmente problemáticos, sempre dá pra conseguir. Já muitas vezes gravei guitarristas de nome com um fio enrolado de um lado na ponte da guitarra e outro no dedo mindinho ou enfiado entre a calça e a barriga!
E muitas vezes a presença de ruídos outros que não o humming se dá por excesso de drive e compressão na guitarra. Meus amigos guitarristas, manerem na compressão e cuidado com o excesso de drive, ok?
D’Yer M’ker e Bron-Yr-Aur
Houses of the Holy. Quinto disco do Led. Lançado em 1973. Devo ter escutado no ano seguinte. Pois bem, só agora, 35 anos depois, eu descubro que o título do “proto-reggae” D’Yer M’ker, cuja pronúncia sermpre intrigou tudo o que é fã, é apenas uma brincadeira com a pronúncia inglesa da palavra “Jamaica”.
Meu Deus! Por que não pensei nisso antes? Eu que me considerava um especialista! Foi um senhor tapa na testa.
Uma coisa levou a outra e pesquisando encontrei o seguinte artigo, onde o atual proprietário do lendário chatô chamado Braun-Yr-Aur, que dá título a duas músicas da banda e que foi o lugar onde vários clássicos foram escritos, reclama que os fãs não o deixam em paz.
Acho que dá pra usar o tradutor do Google pra ter uma ideia. Hilário.

Masters do Rush
Este ano o meu ritual Zep acabou gerando dividendos. Aproveitando minhas obrigatórias 3 horas de viagem entre Rio e Cachoeira Paulista, acabei montando uma discografia completa do Rush pra ouvir, mais pra curtição que outra coisa.
Coloquei o player em Random e foi muito interessante o resultado. Como as músicas tocam aleatoriamente, a gente pode comparar de modo fácil e rápido as diferentes mixagens e masterizações.
A primeira coisa que se nota é que, como era de se esperar, a qualidade técnica e o volume geral vieram subindo com os anos. Daí resolvi tentar eleger a melhor e a pior, e compartilho com os leitores.
O melhor conjunto som+mix+master é pra mim Counterparts. O melhor timbre geral sem os exageros modernos de compressão. Já o pior é de muito longe, Presto. Não sei como deixaram passar.
Alguém concorda?
Up
Sábado passado lá fui eu cumprir a tarefa de levar o herdeiro para assistir a mais recente animação da Pixar. Up se mostrou um filmaço. Isso vcs podem verificar em tudo que é crítica. Mas lá pelo meio do filme, eu lá empolgadão, e eis que reflito: A trilha é sensacional!!!
É claro que nenhum crítico fala da trilha, então cumpro esse papel e afirmo aos valentes leitores que a trilha é sensacional! Confesso que no calor do momento eu até pensei “Deve ser o Giacchino”, mas não acreditei em mim mesmo. No final, olhando os créditos enquanto todo mundo ia embora, lá estava ele, Michael Giacchino. Acertei na mosca.
Michael começou fazendo trilhas de games. Incrível, né, mas é verdade. No game do Jurassic Park ele já arrebentou, mas foi na série Medal of Honor em que ele começou a levantar sobrancelhas. Tanto que J J Abrahams, que não é bobo nem nada já pegou ele pra musicar nada menos que Lost.
E daí a Pixar tomou conta do cara. Com Os Incríveis, e agora Up. Francamente, ele é o cara. Mais uma vez. Confira. Vá ao cinema e assista Up uma vez. Depois, assista de novo com os olhos fechados. Este é Michael Giacchino!
P.S. - outro dia me lembrem de falar de Danny Elfman
Semana Zep
Desde que comecei a trabalhar em áudio eu pratico um ritual anual muito educativo que consiste em, durante uma semana, ouvir criteriosamente toda a discografia do Led Zeppelin. E todo ano eu aprendo mais alguma coisa. É incrível a capacidade de Jimmy Page e amigos de criar. Tudo bem que George Martin e Phil Ramone são dois gênios, um porque formatou o que se tornaria a moderna música pop, e o outro porque levou isso a um nível de sofisticação e qualidade incomparáveis. Agora, na produção de rock, Page foi aquele que sedimentou os alicerces.
Pois bem , semana que é a semana Zep deste ano. E desta vez convido os meus amigos a participarem. Todos os dias durante a próxima semana, sentem-se confortavelmente, coloquem os fones, Zep no Ipod, fechem os olhos… e viajem!
A música mais bonita de todos os tempos
Amigos, essa pode parecer uma tarefa difícil. Pra quem ouve música criteriosamente desde os 4 anos (já lá se vão 44), escolher uma dentre todas seria realmente problemático. Isso se não tivesse existido Thelonious Monk, e se ele não tivesse composto Round Midnight.
Graças a ele, escolher a canção mais bonita de todos os tempos fica fácil. Round Midnight é de longe a coisa mais maravilhosa que o mundo já ouviu. O tom é um festival de bemóis (Mi bemol menor) e a harmonia já gerou teses de mestrado. O site www.allmusic.com lista nada menos do que 2282 aparições em álbuns, fazendo desta a música mais gravada do jazz.
Eu particularmente possuo mais de 100 versões desta minha música preferida. Gostaria de ter mais. De todas as que eu ouvi, a melhor disparado é a de Miles Davis no álbum ‘Round About Midnight, com o quarteto maravilha: Coltrane, Red Garland, Paul Chambers, Philly Joe Jones.
O som é seco. Com surdina. Algumas notas semitonadas - dane-se. É o melhor que alguém já produziu em termos de música. Visceral, gutural, apaixonado, este álbum é um dos mais importantes de todos os tempos. E esta versão é a melhor dentre todas.
Curiosamente aparecendo em segundo lugar como a versão mais bacana em minha modesta opinião, temos a versão chorinho com que o grande Cristóvão Bastos nos brindou. Poderia ficar engraçado, mas ficou sensacional.
Mas correndo paralelo a todas as milhares de versões, só eu tenho o prazer de possuir uma versão exclusiva que meus dois fantásticos amigos Cris Delanno (minha cantora preferida que só perde pra Ella) e Fernando Moura (o pianista mais inteligente do mundo) fizeram.
Então, quem discordar e tiver outra sugestão que comente. De repente existe outra música mais bonita que esta. Mas eu duvido.
Estamos no Globo!
Nesta semana o blob Overdubbing, do Globo, traz uma entrevista com a gente a respeito de Home Studios. Foi um prazer essa entrevista porque o blog é muito bacana e muito informativo. Quem quiser conferir, clique aqui.